Panorama, perspectivas e oportunidades no agronegócio em meio ao COVID-19

  • 29/04
  • Direito Agrário
  • Ana Cristina Leinig de Almeida
Como fica o Agronegócio durante a pandemia? Quais oportunidades surgem?  
 
Este texto é inspirado na palestra proferida pelo Dr. Agro (Marcos Fava Neves), engenheiro agrônomo, no evento Agro Metting, do canal Agro Mulher.

O palestrante traçou um panorama do agronegócio e trouxe perspectivas, comentando acerca dos setores que se beneficiarão e quais serão prejudicados com o coronavírus.

Pois bem, o agronegócio está sendo um dos setores de maior protagonismo nesta crise do COVID-19 enfrentada pelo mundo todo. Com o fechamento quase que completo da economia mundial para distanciamento social, preserva-se a saúde e a curva de contágio do vírus é diminuída. Mas por outro viés, a economia sofrerá muitas perdas.
 
Outros setores podem até parar, mas para que se tenha alimento na mesa, o agronegócio não pode parar. 

Este texto, além de trazer oportunidades e perspectivas do agronegócio, também tem o intuito de valorizá-lo. E para tanto há que se analisar o panorama antes, durante e após a pandemia, com uma visão mais abrangente.  

No cenário atual de coronavírus há muitos pontos positivos para o agronegócio brasileiro. Acesso a novos mercados estrangeiros, oportunidades para muitos setores durante a pandemia e mudanças de paradigmas com a introdução de home office e crescimento das tecnologias digitais. A crise sempre traz oportunidades para aqueles que conseguem aproveitá-las.

Claro que não serão apenas ganhos, muitos setores e cadeias sofrerão com este lockdown parcial da economia. Setores têxteis, de móveis, etanol, restaurantes, e diversos outros. Caso não consigam se reinventar, fecharão suas portas.  

Mas antes deve-se analisar a situação do agronegócio brasileiro sem a pandemia. 

O Brasil possui como maiores compradores dos produtos do agro: China, União Européia e Estados Unidos. E possui uma gama enorme de produtos sendo exportados, desde o papel e celulose até a soja.

Isso faz com que o Brasil seja muito competitivo em diversas cadeias produtivas. O respeito que o agronegócio brasileiro vem conquistando mundo afora só cresce. 

Quanto às exportações em valores, tem-se que o agronegócio gera entre 95 a 100 bilhões de dólares por ano, isso significa quase 1 bilhão de reais por dia. Não é a toa se falar que o agronegócio é o setor que está suportando a economia brasileira. Mesmo antes da COVID-19 o setor detinha aproximadamente 30% do PIB nacional, e com a pandemia e o fechamento parcial de alguns setores, esse percentual tende aumentar.  

A China, como maior consumidora dos produtos brasileiros, com aumento ano a ano de sua população e com o aumento do poder de compra, ocasionará o crescimento das importações do Brasil. Na verdade, os países asiáticos, africanos e os países árabes, que detém 80% da população mundial, serão o destino das exportações nacionais até 2050, segundo o palestrante.

Dessa forma, deve-se analisar sob outra ótica a comercialização com a China, que muitas vezes vem sendo criticada por governantes do Brasil. Há que se pensar que eles são os nossos maiores clientes. Por certo que não se deve apostar apenas neste mercado, há que se expandir a comercialização para outros países. Mas também não se pode jogar dinheiro fora, os chineses têm poder de compra e sua população tende a aumentar, portanto, o investimento na relação com a China é importante. 
    
Atualmente o Brasil controla 50% da exportação de soja e terá safra recorde na soja e no milho. 

Quando se olha para o futuro temos um cenário promissor no agronegócio. O aumento da população mundial, aumento do consumo, aumento da renda, e os principais competidores não tendo condições de expandir sua produção como o Brasil, traz muitas vantagens ao setor.

A seguir alguns números para se compreender o cenário do agronegócio no país. Segundo a CONAB a safra 2019/2020, já está em 252 milhões de toneladas, sendo que a previsão era 241 milhões. Para a safra de 2028/2029, chegaremos próximos a 330/350 milhões de toneladas de grãos.  

Anualmente são acrescidos 1 milhão de hectares novos para a agricultura. Todo esse crescimento da agricultura brasileira denota que o país terá 64/65 milhões de hectares para os grãos, e mais 10 a 12 milhões de hectares para cana, café e outras culturas. Portanto na safra de 2028/2029 haverá 85 milhões de hectares anuais para lavouras, o que corresponde a cerca de 10% do país. 

Veja que nenhum outro país no mercado do agronegócio tem essa proporção: utilização de menos de 10% do território para produção de grãos, lavouras permanentes e outras com a obtenção de resultados tão extraordinários.

E não somente os nossos produtos são bem vistos internacionalmente, como também a gestão e inovação presente nas empresas está sendo modelo no exterior, motivo de orgulho para o país.   

Muitas oportunidades surgirão para os pequenos e grandes produtores rurais, para as empresas, indústrias, cooperativas e associações com modelos de inclusão do pequeno produtor rural, privilegiando o coletivo. 
 
Ao contrário do que muitos pensam, o pequeno produtor rural terá cada vez mais força e expressão, desde que pense no futuro e pense no coletivo, através da união com outros produtores por meio de cooperativas e associações. Dessa maneira todos saem ganhando.

Um exemplo disso é a brasileira Guaxupé, maior cooperativa e maior exportadora de café do mundo, composta por 13 mil famílias. Outro exemplo é a Coopercitrus, que ajuda no desenvolvimento do pequeno produtor oferecendo soluções digitais para aumentar a produção.

Analisando-se os aspectos ambientais do país, tem-se números que não são encontrados em outros países concorrentes no agronegócio. O Brasil é o único país que possui 2/3 da área preservada, e isso se deve também ao agricultor, com as APP’s e reservas legais. Possui ainda o maior índice de preservação de áreas, preserva 66.3%, enquanto que o segundo colocado, a União europeia, preserva apenas 25.1%. E a matriz energética brasileira é a mais limpa, com 45% da energia vinda de fontes renováveis. A média mundial é em torno de apenas 15%. 

Nesse panorama percebe-se que o Brasil tem muito a ensinar ao mundo, sobre preservação de áreas, aproveitamento de áreas, inclusive na parte de legislação ao dispor sobre áreas de APP e reserva legal, por exemplo.

A questão das queimadas na Amazônia merece atenção, porém, o que se viu no ano de 2019 foi uma divulgação infundada e que tomou proporções enormes. Sem qualquer embasamento em números - as queimadas estavam dentro da média dos últimos 10 anos - causou grande abalo e distorção da verdadeira situação da preservação ambiental no Brasil. 

Além disso, o país tem avançado na economia circular e de integração de atividades. Nesse modelo, forma-se uma cadeia, em que tudo é aproveitado, não há poluição ao meio ambiente, pois não há descarte de resíduos. Um exemplo disso é o etanol de cana misturado com o etanol de milho. O milho processado gera um componente proteico que é usado na alimentação do gado, que por sua vez gera o esterco, que é tratado e volta como fertilizante nas cadeias produtivas da cana e milho. 

A chance de consolidação do Brasil na posição de potência alimentar e ambiental no mundo é muito grande. O Brasil deve assumir esse lugar e trabalhar para que este cenário seja cada dia mais promissor.

Ao final, a análise do cenário do agronegócio brasileiro, sem levar em consideração o novo coronavírus, é otimista. Há muitos fatores que favorecem, como exemplo cita-se o clima, disponibilidade de água, quantidade de sol, matrizes energéticas limpas, investimento em tecnologia para melhoramentos, dentre outros tantos. É por todos estes números que o Brasil ganhou o título de celeiro do mundo. Mas para manter este posto deverá promover algumas adequações e manter alguns cuidados frente à pandemia.
 
A partir deste ponto, passa-se à análise dos impactos do novo coronavírus no agronegócio brasileiro. Como anteriormente mencionado há setores que serão beneficiados com a pandemia e há outros que serão prejudicados.

Para melhor compreensão, o Dr. Agro apresenta, em sua palestra, um quadro comparativo dos setores que ele entende que ganharão com a pandemia e dos setores que sofrerão perdas durante e após a pandemia.
 
Setores beneficiados (Oportunidades):
- Desvalorização do real, aumenta a competitividade na exportação;
- Menores juros, se o capital se tornar disponível;
- Supermercados (tomam espaço dos restaurantes);
- Explosão do sistema delivery;
- Carnes – aumento do consumo na Ásia e fim dos exóticos. 
- Fechamento de frigoríficos nos EUA abre oportunidade ao mercado brasileiro. 12 frigoríficos pararam de operar nos EUA, em decorrência de contaminação de colaboradores, inclusive o maior frigorífico de porco, responsável por 5% do consumo americano de carne suína, e outro grande frigorífico de carne bovina, responsável também por 5% do consumo de carne de gado. Isso ocasionará o aumento da demanda por carnes brasileiras.  
- Soja e milho (safra recorde, e preços competitivos em reais);
- Aumento do consumo de outros alimentos, como ovos e alimentos de nutrição para a imunidade;
- Suco de laranja e outras frutas fontes de vitamina. O Brasil teve grande safra e está com bastante estoque;
- Café é promissor, somente com o risco de cair o consumo das cafeterias;
- Papel e celulose (aumentam uso para materiais de higiene);
- A ameaça de desabastecimento mundial não afeta o Brasil. Isso afetará positivamente a imagem internacional do agronegócio brasileiro e possibilitará acordos comerciais com países que eram resistentes em outros tempos;
- Países abrirão mercado para compras no Brasil;
- Gastos dos Governos mundiais convertidos no maior consumo destinados às populações carentes;
- Imagem do agro afetada de forma positiva. O setor está abastecido, todos têm comida na mesa, o agro não parou;  
- Menor custo com diesel, facilitando o escoamento da produção;
- Explosão da eficiência na gestão (home offices e digital);
- Digitalização de operações, aplicativos (um aplicativo possibilita por exemplo melhor acesso de hortículas com pontos de venda. Outro aplicativo possibilita o agropecuarista encontrar fretes próximos para escoar sua produção sem sair de sua propriedade);
- Simplicidade levando a novos comportamentos;
- Nova onda de inclusão e solidariedade na sociedade;
 
Setores prejudicados (cautela, reinventar para sobreviver):
- PIB mundial. A economia que vinha crescendo, com expectativa de +3% no mundo. Segundo previsão do Banco Mundial para este ano será de -5%. Diferença de 8 pontos.;
- Danos graves à saúde e às pessoas (danos físicos, psicológicos e mortes);
- PIB brasileiro de +2% para -0,5%;
- Comércio global (cai entre 5 a 30%);
- Crise de confiança e fuga de capitais emergentes. O que levou a nossa moeda acima de R$ 5,00 o dólar;
- Movimento de regressão do Estado com relação às estatizações. O processo de diminuição das estatais em que o Brasil se encontrava será interrompido e o governo terá que assumir alguns setores novamente, como exemplo o setor aéreo.
- Setor de serviços: foodservice, eventos, turismo, aéreo, hotéis;
- Setor de indústria (bens duráveis, automóveis, etc...);
- Etanol, cana., biodiesel (petróleo cai 65% em três meses e há queda de consumo de etanol). Algumas medidas devem ser tomadas pelo governo. Redução do PIS/COFINS, ou eliminação. Aumento da tributação de combustível com incidência da CID.
- Flores (70% de quebra). Maior participação do varejo. Não tendo eventos, o consumo de flores é reduzido drasticamente, e o consumidor no varejo teria que aumentar para que o setor não sofresse tanto. 
- Borracha (fechamento de fábricas de automóveis, dentre outros, que ocasionou a quebra das cadeias integradas);
- Algodão: consumo cai, lojas e confecções fechadas, roupas não estão sendo compradas e concorrência com petróleo (-17% preço). 
- Açúcar (-26% preço) 
- Etanol de milho - relação BR e EUA. Os EUA ao fecharem a economia e diminuírem a circulação de carros e o consumo de combustível, afetam o mercado nacional de etanol de milho. Os americanos compravam muito etanol, cerca de 140 milhões de toneladas, a composição do combustível nos EUA possui 10% de etanol de milho; 
- Diminuição no consumo de couros, móveis, madeira e outros;
- Encarecimento dos insumos usados na agricultura. Os insumos são em sua quase totalidade importados, portanto, pagos em dólar. A desvalorização da moeda nacional encarece estes produtos; 
- Rações mais caras, impactando quem produz frango e suínos. Os insumos utilizados para as rações também são importados;
- Abalo na confiança, contratos, crédito (a depender do oportunismo). Com toda a certeza haverá aqueles que, mesmo que não afetados pela pandemia, se aproveitarão da situação e não honrarão os compromissos.
- Neonacionalismo, surgirão países querendo produzir seu próprio alimento; 
- Políticas de redução de dependência alimentar em outros países;
- Aumento global de exigências sanitárias nas cadeias do agro. A pressão mundial será para a questão sanitária. Custos de adaptação da produção aos cuidados com o vírus.
- Interrupção parcial de algumas cadeias produtivas;
 
Diante de todo esse panorama, há algumas medidas a serem tomados pelo Brasil para se manter na posição de celeiro do mundo e grande potência alimentar mundial.
 
Cuidados sanitários deverão ser redobrados, reavaliados e devem ser introduzidos novos cuidados. Deve-se evitar o que aconteceu com os americanos que ao descuidarem da sanitização tiveram 12 frigoríficos fechados no país pela contaminação dos funcionários. 

Também deve ser investido no pequeno produtor rural, que tem grande potencial se pensar no coletivo, cooperativismo e associações.

O palestrante comenta que uma maneira de se manter competitivo no mercado internacional e com o controle dos preços, seria os produtores se unirem em associações para a comercialização do produto lá fora. Dessa maneira evitariam a competição entre empresas do mesmo setor/cadeia pelos importadores, e, ao mesmo tempo controlariam os preços dos seus produtos, porque quem lutaria pelo preço no mercado seria a associação e não os produtores de maneira isolada.

Alguns setores terão que se reinventar para sua manutenção no mercado.

Os princípios contratuais como a boa-fé objetiva e a função social dos contratos devem ser primados. Neste momento em que há benesses com a suspensão e postergação dos pagamentos deve-se estar atento aos oportunistas. Aqueles que ainda que não afetados pela crise econômica do coronavírus tentarão se beneficiar destas medidas, e agindo assim afetarão a confiança nas negociações. 

O agronegócio, que há anos vem sendo bombardeado com muitas críticas de ambientalistas e da população como um todo, tem a oportunidade de mostrar o real causador da poluição. Diante do que está ocorrendo atualmente, concluiu-se que a poluição não está no campo, quem polui é a cidade. Nunca se viu ar mais limpo, animais transitando livremente, águas limpas nos canais de Veneza, e nada mudou no agronegócio.

A evolução digital também foi acelerada com o aumento de home-offices e do distanciamento social. O agro que possui enorme resistência ao digital, acabou por se render. A introdução do digital alavancará ainda mais o agronegócio.  

Uma maior solidariedade, empatia e pensamento no coletivo tem aflorado nas relações humanas, e isso causará uma mudança nas relações humanas como um todo. É uma grande evolução da humanidade.

Não se pode negar que um cenário difícil será enfrentado, ainda não se tem noção do que está por vir. Mas após toda essa análise do agronegócio antes, durante e perspectivas após o novo coronavírus, a conclusão que se chega é muito positiva, com muitas oportunidades e inovações. E uma coisa é certa, o mundo não será mais o mesmo após toda essa crise.  
 
(Por Dra. Ana Cristina Leinig de Almeida) – advogada no escritório Kohl &  Leinig Advogados Associados, voltado à assessoria ao agronegócio, com sede em Palmas/PR (www.kohleleinig.com.br), e-mail: contato@kohleleinig.com.br. Vice-presidente da Comissão de Direito Agrário e do Agronegócio da Subseção de Palmas/PR. Integrante da CNMAU (Comissão Nacional das mulheres agraristas da UBAU) e integrante da UBAU (União Brasileiro dos Agraristas Universitários).

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